# Meu filho é autista e não se comunica. Por onde começar?

Categoria: Autismo · Publicado em 02/08/2026 · Autoria: Ana Karolline Figueredo dos Santos · Leitura de 7 minutos

> Depois do diagnóstico, a pergunta que mais chega até nós é essa. E a resposta começa por uma mudança pequena de palavra que muda tudo: antes de pensar em fala, pensamos em comunicação.

Endereço deste artigo: https://decollarefonoaudiologia.com.br/blog/autismo-e-comunicacao-por-onde-comecar

Fala e comunicação não são a mesma coisa

Falar é produzir palavras com a boca. Comunicar é fazer outra pessoa entender o que você quer, o que você não quer, o que você sente. Dá para comunicar sem falar: com o olhar, com um gesto, puxando a mão do adulto, apontando, mostrando uma figura. E dá para falar sem comunicar: repetir trechos de desenhos, nomear objetos, falar sozinho.

Muitas crianças autistas que “não se comunicam” estão, na verdade, comunicando de formas que os adultos não estão lendo. E muitas que “falam” não estão usando a fala para se comunicar. Separar essas duas coisas é o primeiro passo para saber por onde começar.

Primeiro: entender como ele se comunica hoje

Antes de ensinar qualquer coisa nova, observamos o que já existe. Como o seu filho pede o que quer? Puxa você até a geladeira? Chora? Pega sozinho? Olha para o objeto e depois para você? Como ele recusa? Empurra? Grita? Sai de perto? Como ele mostra que está feliz, ou com dor?

Cada uma dessas coisas é comunicação. Algumas são funcionais (puxar a mão até a geladeira resolve o problema). Outras custam caro para a criança e para a família (chorar até alguém adivinhar). O trabalho começa em reconhecer essas formas, responder a elas e, aos poucos, oferecer formas mais claras e menos custosas.

**Sobre “eu não sei por que ele chora”.** Essa é uma das frases mais difíceis que ouvimos, e ela tem uma resposta prática: quando a criança não tem um jeito de dizer que está com dor, com fome, com medo ou que quer parar, o choro é o que sobra. Dar a ela uma forma de comunicar isso é, para muitas famílias, a primeira grande mudança. E ela não depende de fala. Segundo: criar motivos para se comunicar

Uma criança se comunica quando tem um motivo. Se tudo o que ela quer está ao alcance, se o adulto adivinha antes de ela pedir, se a rotina é tão previsível que nada precisa ser dito, as oportunidades somem. Parte do trabalho da família, com orientação, é criar essas oportunidades no dia a dia:

- **Oferecer escolhas.** Duas opções à vista, e esperar a criança indicar de algum jeito qual quer.
- **Dar um pouco e esperar.** Um pedaço do biscoito, não o pacote. Um empurrão no balanço, e pausa. A criança precisa pedir “mais”, do jeito que conseguir.
- **Colocar o que ela quer à vista, mas fora do alcance.** Um pote transparente fechado cria um motivo para pedir ajuda.
- **Pausar em brincadeiras previsíveis.** “Um, dois e…” e esperar. A criança vai tentar completar, com um som, um olhar, um movimento.
- **Responder a qualquer tentativa.** Um olhar, um som, um gesto: responda como se fosse uma palavra, e diga a palavra em seguida.

Nada disso exige que a criança fale. Tudo isso ensina que comunicar funciona.

Terceiro: dar a ela um sistema

Para muitas crianças autistas que não falam ou falam pouco, a Comunicação Aumentativa e Alternativa é o caminho para uma comunicação funcional agora, sem esperar a fala. Pode ser uma prancha com figuras, um livro de comunicação como o PODD, um tablet com um sistema como o TD Snap. O que importa é que a criança tenha um jeito de dizer “quero”, “não”, “mais”, “acabou”, “ajuda”, e que as pessoas ao redor usem o mesmo sistema com ela.

A dúvida que sempre aparece: “mas ele vai parar de tentar falar?”. As pesquisas mostram que não. A CAA não atrapalha o desenvolvimento da fala e, em muitos casos, apoia. Quando a fala é um objetivo possível, trabalhamos as duas coisas juntas. [Escrevemos um artigo inteiro sobre isso.](https://decollarefonoaudiologia.com.br/blog/caa-e-linguagem-nao-e-aplicativo)
Quarto: envolver todo mundo

Uma criança autista passa a maior parte do tempo em casa e na escola. Se apenas a fonoaudióloga sabe criar oportunidades de comunicação e usar o sistema dela, o progresso fica lento. Se a mãe, o pai, a avó, a professora e a auxiliar fazem parecido, a criança encontra o mesmo jeito de se comunicar em todo lugar, e aprende muito mais rápido.

Na Decollare, chamamos isso de ecossistema de comunicação. Orientar e treinar as pessoas ao redor da criança é parte do trabalho, não um extra.

E a fala?

Ela pode vir. Para muitas crianças autistas, vem. Mas ela vem melhor sobre uma base de comunicação funcional do que sobre um vazio. Uma criança que aprendeu que comunicar funciona, que tem motivos para se comunicar e que tem um jeito de fazer isso está em condição muito melhor de desenvolver a fala do que uma criança frustrada, que aprendeu que ninguém a entende.

Quando há também uma dificuldade motora de fala, o que acontece em parte das crianças autistas, a terapia inclui métodos específicos para isso. A avaliação é que vai dizer.

> O trabalho é sempre com aquela criança, do jeito que ela aprende, e com todas as pessoas que fazem parte da rotina dela.

Por onde começar, então

- Observe e anote como o seu filho se comunica hoje, mesmo sem palavras.
- Comece a criar oportunidades na rotina: escolhas, pausas, pedaços.
- Responda a toda tentativa como se fosse uma palavra.
- Procure uma avaliação fonoaudiológica com quem tem formação em autismo e em CAA. A intervenção não precisa esperar o laudo fechar.

Se você quiser conversar sobre o seu filho, [escreva para a gente](https://decollarefonoaudiologia.com.br/contato). Conte a idade dele, como ele se comunica hoje e o que você mais gostaria que mudasse. A avaliação começa por aí.

**Aviso.** Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional. 

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Responsável técnica: Ana Karolline Figueredo dos Santos · CRFa 6-10873 · Responsável técnica