Uma comparação que ajuda
Imagine que você recebe um livro em japonês e alguém diz: “pronto, agora você pode se comunicar em japonês”. O livro está completo. Tem todas as palavras. Mas você nunca ouviu japonês, ninguém ao seu redor fala japonês e ninguém te mostrou como usar aquele livro. Você não vai se comunicar. Vai deixar o livro na estante.
É isso que acontece quando uma criança recebe um tablet com um sistema de comunicação e ninguém a ensina a linguagem daquele sistema, nem usa o sistema com ela. O recurso é a parte pequena. A linguagem é a parte grande.
O que é CAA, afinal
Comunicação Aumentativa e Alternativa é o conjunto de recursos e estratégias que permitem que uma pessoa se comunique quando a fala não é suficiente. “Aumentativa” porque pode complementar a fala que existe. “Alternativa” porque pode substituí-la quando ela não existe.
Pode ser um gesto. Uma prancha com figuras. Um livro de comunicação como o PODD. Um sistema em tablet como o TD Snap. Um dispositivo acionado pelo olhar. O que define a comunicação alternativa é a função, e não a tecnologia: dar à criança um meio de dizer o que ela quer, o que não quer, o que sente e o que pensa.
Por que “entregar o comunicador” não funciona
Porque a criança precisa aprender a linguagem do sistema, e ninguém aprende uma linguagem sem ver os outros usando. Uma criança que fala aprendeu ouvindo milhares de horas de fala antes de dizer a primeira palavra. Uma criança que vai se comunicar por símbolos precisa ver milhares de horas de gente se comunicando por símbolos. Isso se chama modelagem, e é a parte mais importante da CAA.
Modelar é usar a prancha ou o tablet enquanto você fala. Você diz “vamos comer” e aponta “comer” no sistema. Diz “acabou” e aponta “acabou”. Sem cobrar nada da criança. Só mostrando. Com o tempo, ela começa a usar também, do mesmo jeito que um bebê começa a falar depois de muito ouvir.
Se a única pessoa que modela é a fonoaudióloga, uma vez por semana, a criança vai aprender devagar. Se a mãe, o pai, a avó e a professora modelam, ela aprende rápido. Por isso a CAA na Decollare envolve todo mundo.
Um erro comum: usar a prancha só para a criança pedir. Comunicar é muito mais do que pedir. É recusar, comentar, perguntar, brincar, reclamar, contar o que aconteceu. Um sistema que só tem “quero biscoito” e “quero água” funciona como cardápio, não como linguagem.
O que precisa acontecer, então
Na Decollare, chamamos de projeto de comunicação. Ele tem algumas etapas:
- Avaliar a criança. Como ela se comunica hoje, o que compreende, quais são as habilidades motoras e visuais dela, o que ela mais quer comunicar.
- Escolher o vocabulário. Priorizamos o vocabulário central, as palavras que servem para quase tudo: quero, não, mais, acabou, ajuda, olha, vai, para, eu, você. Com vinte dessas palavras a criança já consegue dizer muita coisa. Nomes de objetos vêm junto, mas não são o começo.
- Escolher o recurso. Baixa tecnologia, alta tecnologia ou os dois, de acordo com a criança. Quase sempre há uma versão impressa, porque tablet não vai para o banho nem para a piscina.
- Ensinar os adultos a modelar. Família, escola, cuidadores. Todo mundo usando o sistema na rotina, sem cobrar.
- Ensinar a criança. Em situações em que ela quer muito se comunicar, com muito motivo e pouca pressão.
- Ampliar. O sistema cresce com a criança. Mais palavras, mais funções, frases mais longas.
“Mas ele vai parar de tentar falar”
Essa é a dúvida mais comum, e merece uma resposta direta: as pesquisas mostram que a CAA não atrapalha o desenvolvimento da fala. Em muitos casos, apoia. Uma criança que consegue se comunicar fica menos frustrada, interage mais e recebe mais linguagem de volta, e isso favorece a fala, quando ela é possível. Quando a fala é um objetivo viável, trabalhamos as duas coisas juntas. Quando não é, a criança ganha uma voz de qualquer forma.
O que atrasa a comunicação de uma criança é passar anos sem ter como dizer o que quer.
O direito de se comunicar existe independentemente de a criança falar ou não.
Um exemplo do que muda
A mudança que as famílias mais relatam raramente é uma frase longa ou uma conquista escolar. Costuma ser a criança conseguir dizer “não” e “para”. Antes, o que ela tinha para dizer isso era chorar, gritar ou se jogar no chão. Quando ela passa a ter um símbolo, o comportamento diminui e a relação com a família muda. Ela deixa de ser “a criança que faz birra” e passa a ser alguém que tem o que dizer.
Por isso dizemos que comunicação alternativa é linguagem. Ela dá à criança uma identidade como comunicador. E isso não vem de um aplicativo. Vem de um projeto, com gente ao redor.
Se o seu filho não fala, ou fala pouco, e você fica adivinhando, conheça como trabalhamos com CAA ou escreva para a gente. Ele não precisa esperar a fala para começar a se comunicar.
Aviso. Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional.